10 de mar. de 2024

A trapaça, a confusão e o excesso de tolerância.

Quando um botonista sai de sua casa para disputar um torneio, o que ele menos deseja é ser ludibriado ou ser envolvido em algum tipo de situação na qual não gostaria de estar ou presenciar. Infelizmente, tanto no nosso meio como em todos os setores da sociedade nos encontramos com indivíduos que não se adequam às normas de convivência social.

No mundo do futebol de mesa, no meu entender, mesmo que sejam minoria, os principais personagens que tornam desagradável algo que deveria ser uma competição com convivência sadia se dividem em três grupos: os trapaceiros, os criadores de situações constrangedoras e aqueles que estão em ambos os grupos anteriormente citados.

Os trapaceiros compõem a parte mais visível dessa “banda podre”. Eles são capazes de qualquer subterfúgio para vencer uma partida. Suas artimanhas são conhecidas de todos e não vale a pena descrevê-las aqui. Existe também uma espécie de canalhice em que dois atletas combinam um resultado para favorecer um deles ou um terceiro mas que, certamente, prejudicará alguém. Outro tipo de engodo é feito por organizadores de competições que manipulam regulamentos e tabelas para favorecer a si mesmos e aos seus pares.

O grupo daqueles que criam situações constrangedoras, que falam palavrões, que chutam ou lançam objetos em seus momentos de frustração contra seus companheiros de esporte e uma miríade de maus comportamentos que, descrevê-los, demandaria muito tempo do leitor desta coluna. Existem também os donos da verdade absoluta, cuja opinião não pode ser, de nenhuma maneira contestada.

Entretanto, o pior de todos os casos é aquele dos raros indivíduos que mesclam as características do primeiro e do segundo grupo supracitados. Seriam a la crème de la crème, ou melhor, la merde de la merde dos problemáticos do nosso meio. Na minha curta trajetória como atleta do futebol de mesa tive a infelicidade de conviver com um deles. Por sorte foi apenas um. Este tipo de gente é nefasta para o esporte pois estraga o ambiente e desagrega os grupos.

Infelizmente, na nossa comunidade, somos tolerantes com esses indivíduos. Exercemos uma espécie de laissez passer, um “deixa estar para ver como é que fica”. Creio que parte dessa tolerância vem da nossa cultura. Apesar de sabermos exatamente quem eles são e o que eles fazem, preferimos mantê-los ao nosso lado, talvez por receio de gerar ainda mais conflitos, talvez por não querer diminuir um grupo que já não é muito grande, talvez porque o problemático é um jogador diferenciado tecnicamente ou talvez pela pueril esperança de que o indivíduo mude seu comportamento pela convivência com os bons.

Na maioria das vezes, comentamos entre nós que fulano, beltrano e cicrano são assim, que é difícil aguentar suas atitudes mas, quando um deles aparece, lhe damos um tapinha nas costas e convidamos para uma partida amistosa ou até mesmo para uma resenha pós-jogo, regada à cerveja. E assim, o tempo passa e as laranjas podres, que mantêm tais comportamentos durante anos e anos, continuam no cesto.

Texto: José Carlos Cavalheiro

9 de mar. de 2024

É difícil marcar gols no futebol de mesa?

ModalidadeÁrea do goleiro (cm2)Área da baliza (cm2)Área coberta (%)
Bola 12 Toques28,0062,5045
Dadinho28,0049,5057
Bola 3 Toques24,5071,5434
Pastilha24,5049,5049
1 Toque12,0090,0013
Modalidades de origem brasileira


As modalidades utilizem goleiros com as mesmas dimensões, todas elas possuem balizas diferentes e , portanto, a área coberta por cada goleiro também é diferente. De uma maneira simplista se poderia pensar que quanto menor a área coberta mais fácil é fazer gols mas não é bem assim por causa das particularidades de cada uma das regras.

Nas modalidades Dadinho, Pastilha e Bola 12 Toques, temos as maiores áreas cobertas pelos goleiros, respectivamente 57%, 49% e 45%. Entretanto, é exatamente nelas onde temos as maiores quantidades de gols marcado, já que o número de toques permitidos por jogada e por botão são relativamente altos (respectivamente 9×3, 8×2 e 12×3). Aqui deve-se fazer uma ressalva em relação ao tipo de “bola”. A pastilha e a bola de feltro (microfibra ou EVA) permitem uma maior precisão na hora dos chute em comparação ao dadinho. Por sua vez, a condução da bola de feltro (microfibra ou EVA) é mais complicada do que a da pastilha, sendo o dadinho mais simples de conduzir que as demais.

12 Toques


Nas modalidades mais antigas, e tradicionais, temos exatamente as menores áreas das balizas cobertas pelos goleiros: Bola 3 Toques 34% e Disco 13%. Entretanto, a dificuldade de se ter uma oportunidade de gol é muito maior do que nas demais modalidades em virtude das restriçoes impostas pelas respectivas regras. Ambas utilizam os maiores tamanhos de mesas entre todas as modalidades. Somando-se a isso os poucos toques (no Disco é apenas um único toque!), um chute torna-se raro na dinâmica do jogo, e normalmente não se dá em posições mais “confortáveis”, como em modalidades com mesas menores e mais toques. Na modalidade Disco os botões, a bola e as traves podem estar em distâncias às vezes superiores a um metro, entre si. É exatamente na modalidade Disco onde temos os menores placares. Na modalidade Bola 3 Toques para poder tentar o gol são necessários três lances consecutivos. O jogador deverá tocar na bola no primeiro lance e fazer o passe no segundo para ter direito ao terceiro lance que é a tentavia de gol. Sendo assim, uma menor área coberta pelos goleiros em relação às balizas é a maneira pela qual se pode, nessas modalidades, se chegar ao objetivo do esporte; marcar gols para vencer as partidas.

3 Toques


Em relação às Regras Internacionais (Chapas, Sectorball e Subbuteo), é interessante se observar que os goleiros são diferentes, não adotando o formato quadrangular, típico das modalidades brasileiras.

Sectorball


Nas modalidades Chapas e Sectorball os goleros são cilíndricos (na verdade são botões maiores). Já no Subbuteo é uma figura, com haste. Como o time de Subbuteo é todo composto por figuras sobre bases, temos que nas três modalidades internacionais os goleiros são, na verdade, similares às peças do restante dos times. Em geral, nas modalidades estrangeiras, mesmo que não internacionalizadas e restritas aos seus países de origem, não é comum o uso de goleiros quadrangulares, como os brasileiros. Na maioria delas os goleiros são sempre botões maiores. Conseguindo a posição para o chute, o que nem sempre é simples, fazer um gol não é tão difícil nas modalidades Chapas e Sectorball.

O Subbuteo é uma modalidade em que o goleiro também ocupa um espaço muito pequeno em relação à baliza, mas isso é compensado sendo a única onde o goleiro é móvel (no Brasil temos uma modalidade regional, a Regra Paraibana, onde apesar de quadrangular, o goleiro também é móvel), com o goleiro podendo ir à bola para defender, semelhante ao que ocorre no Totó (Pebolim em algumas regiões), com o detalhe de que no Subbuteo não é necessário avisar do chute ao gol! Portanto é preciso estar sempre atento e com uma mão no goleiro, para evitar ser surpreendido.

Subbuteo


Todas as três modalidades internacionais praticadas no Brasil possuem a mesma característica onde, sob dadas circunstâncias, os goleiros podem sair do gol para jogar, indo atuar na linha como qualquer outro jogador (no caso do Subbuteo há uma peça específica que substitui o goleiro com haste, chamado “goleiro-linha”). Só que nesta situação fica-se sem goleiro, e pode-se ser surpreendido em um contra-ataque, com um chute com o gol vazio (que é mais difícil de se fazer do que se imagina, pois a falta do goleiro dentro do gol tira a referência do chute).

Texto: José Carlos Cavalheiro & Marcelo Coutinho

Reprodução: Site Fefumerj

29 de ago. de 2018

FUTEBOL DE BOTÃO NOS ANOS 60



Na década de 60, além das peladas de futebol em campos irregulares, outro esporte muito disputado na minha juventude era o futebol de mesa. O campo era uma mesa retangular montada sobre os cavaletes. Os jogadores eram confeccionados de material plástico, que chamávamos de botões de camada. Foi uma fase muito interessante da pré-adolescência e da adolescência. Movimentava a juventude daquele tempo.

Cada guri tinha um time formado por titulares e reservas, sendo que o Grêmio e o Internacional eram representados por aqueles amigos que tivessem mais habilidade. A bola era um botão minúsculo de camisa.

O meu time era o Cruzeiro de Belo Horizonte, um time forte. Na camisa havia a cor azul do Grêmio. Lembro-me de alguns atletas: Wilson Piazza, Dirceu Lopes, Tostão, Nelinho. Em cada botão era colado o nome dos jogadores da equipe, recortados de alguma revista ou jornal.

Os jogadores de botão tinham valor de troca ou de venda. Os goleadores eram os mais valorizados, sendo que um bom centroavante valia uma fortuna, praticamente inegociável. Hoje seria comparado aos grandes craques de futebol. Bastava ser goleador. Os craques do meu time eram os meio-campistas, que faziam gol a distância. Os meus jogadores inegociáveis eram Dirceu Lopes e Tostão.

Se alguma transação acontecesse entre os guris e o jogador era considerado craque, em troca se recebia diversos atletas. Alguns se arrependiam do negócio. Sua equipe baixava de rendimento.

Os jogos aconteciam sábados à tarde no porão da casa do Braun ou no pátio do Paulo Zimmer, sob as sombras das parreiras. A torcida era numerosa. Os jovens do bairro e mais aqueles das ruas vizinhas vinham assistir. Ficavam sempre de olho em algum jogador goleador, que se sobressaísse nos jogos.

O juiz era escolhido na hora, tomando-se o cuidado de ser um cara equilibrado e neutro, preferencialmente, de outro bairro. Os campos, confeccionados por marcenarias, assemelhavam-se aos de futebol. Para os jogadores deslizarem melhor, passávamos parafina no tablado, na palheta e nos jogadores.

As regras tinham como base as do futebol. Era uma jogada para cada um e se acertasse o passe, continuava jogando. Caso errasse a bola e atingisse um jogador, era falta. Se chutasse a gol, deveria anunciar ao adversário, para que pudesse posicionar o goleiro. O campeonato se estendia durante alguns meses e essa foi uma fase muito interessante da pré-adolescência e da adolescência. Movimentava a juventude daquele tempo.

Não pense que os jogos transcorriam sem nenhum incidente. Os bate-bocas eram constantes entre os guris e os envaretados abandonavam os jogos. Não aguentavam a flauta do oponente. Ficavam dias de beiço caído e só o tempo se encarregava de fazer tudo voltar ao normal.

Por: CLOVIS HAESER

Reprodução: www.gaz.com.br

8 de mar. de 2012

MÁRIO "FERRETI" NOGUEIRA

Outro grande camarada do futebol de mesa que se foi. Pouco antes de vir morar na Colômbia, encontrei com o Ferreti e ele me disse que havia sido internado as pressas mas que já estava tudo bem. Uns dois mêses depois, em minha última viagem ao Rio de Janeiro encontrei com o cara bebendo e fumando no boteco da Rua José Vicente. Dei-lhe uma indireta mas acho que não foi isso o que o levou para o outro lado. O cara se jogava de cabeça no trabalho. Menos um gente boa nesse mundo.

23 de jan. de 2010

HOMENAGEM AO PAULO CÉSAR CHAPOCA



Conheci o Paulo em 2002 quando fui jogar no Grajáu Country. Ele não era de falar muito durante os treinos e competições. Deixava para conversar na mesa do bar junto com o Ferreti, Alemão, Lucas Paraíba, Servio, Jorge Paulo e tantos outros. Nesses bate-papos aprendi que ela era casado, tinha uma filha, trabalhava na contabilidade de uma grande rede de hotéis en estava de "saco cheio" daquele emprego. A única coisa que não gostava nele era do péssimo hábito que ele tinha de fumar, mas todos nós temos nossos defeitos.

Ele era incapaz de chamar-me pelo nome. Era AEROBOY todo o tempo que saia da boca dele com um tom debochado e extremamente engraçado. Na mesa de jogo não era um virtuoso pois não tinha a mínima paciência para trabalhar as jogadas. Quando achava que já estava mais ou menos bom mandava o adversário preparar o goleiro. Entretanto, se ele estivesse em um dia inspirado era gol na certa.

Quando saí do Grajaú para jogar no Olaria acabei perdendo o contato mais direto com o Paulo pois ele parou de disputar as competições oficiais. Depois que saí do Rio de Janeiro nunca mais o vi.

Com o Paulo César já são três os atletas masters falecidos em consequência de ataques cardíacos em menos de quatro anos. O Miro e o Renato Raposo foram os primeiros. Vamos cuidar melhor do nosso motorzinho pois sem ele não podemos viver e, sendo assim, somente poderemos jogar botão lá no andar de cima.